
Brian Cox: A Vida Além de Logan Roy, Segredos e Polêmicas
Para Brian Cox, o desafio de interpretar o patriarca da mídia Logan Roy em ‘Succession’, da HBO, ainda persiste, mesmo três anos após o fim da série. A influência do personagem é notável: “Antes de ‘Succession’, eu nunca costumava xingar… Agora, eu xingo o tempo todo!”, declara Cox. Ecos de Logan Roy se manifestam em sua vida cotidiana. Ao chegar para uma entrevista, ele demonstra o mesmo estresse característico do personagem. Um compromisso inesperado em Stoke Newington, norte de Londres, foi prontamente descartado com um sonoro “F*** off. Eu não vou!”
Recentemente, Cox teve um desentendimento com um representante da McDonald’s. Ele é a voz da marca nos Estados Unidos e participou do lançamento de um brinde, o Squishmallow (um bichinho de pelúcia que acompanha o McLanche Feliz). “Escute, eu nunca tive problemas com anúncios. É uma forma de ganhar a vida”, afirma. No entanto, ele não aprecia que sua dicção seja confundida, pronunciando “mallow” em vez de “mellow”. “Tivemos uma discussão”, relata solenemente. “Eu disse: ‘Pelo amor de Deus, é mallow. Passei o dia inteiro gravando anúncios de Squishmallows!’”
A Popularidade e o Lado Sombrio da Fama
Curiosamente, muitos apreciam essas explosões de raiva. Antes, os fãs pediam apenas um autógrafo; agora, insistem em um vídeo de Cox os mandando “às favas”. “Sinto falta dos tempos em que as pessoas não sabiam quem eu era”, confessa. “Agora, o mundo inteiro me conhece. E isso é muito difícil de lidar. Eu realmente não gosto disso…”
A entrevista acontece em uma sala de reuniões em seu escritório de relações públicas, no centro de Londres. Uma mesa farta de café e lanches, e um flip chart que sugere uma apresentação sobre cruzeiros e parques temáticos. Cox não aprova o café oferecido, e alguém é enviado para buscar um latte. A rapidez com que ele desce as escadas é impressionante.
‘Succession’ o tornou um nome conhecido em seus setenta e poucos anos, mas Cox já tinha uma carreira extraordinária. Criado em Dundee, na década de 1950, por suas irmãs mais velhas (seu pai, um comerciante, faleceu quando ele tinha oito anos; sua mãe sofria de problemas de saúde mental), ele começou a trabalhar aos 14 anos como “faz-tudo” no teatro local, interpretando um homem de quarenta anos aos quinze. Uma bolsa de estudos para a London Academy of Music & Dramatic Art (Lamda) mudou sua vida. Ainda adolescente, foi convidado para audição por Sir Laurence Olivier (diretor do National Theatre) e logo testemunhou o comportamento peculiar de grandes atores, quando a Princesa Margaret colocou a mão dentro de sua camisa para apalpar seu mamilo nos bastidores do Royal Court Theatre, em Londres, em 1969.
Posteriormente, atuou ao lado de Olivier em ‘King Lear’ e ganhou dois prêmios Olivier por seu trabalho no palco. Sua presença em clássicos da TV dos anos 60 e seguintes é marcante: ‘Z-Cars’, ‘Inspector Morse’, ‘Red Dwarf’, ‘Sharpe’, ‘Frasier’. Sua estreia no cinema veio com ‘Braveheart’ em 1995, seguido por papéis em filmes como a série ‘Jason Bourne’, ‘Adaptation’ e até ‘Rise of the Planet of the Apes’ (onde interpretou um personagem precursor de Logan Roy, aplicando técnicas de gestão brutais a um santuário de macacos). Ele não participou de ‘Harry Potter’, como menciona em seu livro de memórias, ‘Putting the Rabbit in the Hat’ (“Antes do mágico tirar o coelho da cartola, ele tem que colocá-lo lá dentro!”). Embora seus amigos tenham participado, ele nunca recebeu o convite.
Críticas e Opiniões Francas
Cox também evita grandes franquias, considerando-as bem pagas, mas pouco desafiadoras e repetitivas. Ele recusou o papel do governador em ‘Pirates of the Caribbean’ (interpretado por Jonathan Pryce), aliviado por não trabalhar com Johnny Depp, a quem considera “exagerado e superestimado”. Sua franqueza é uma marca registrada. Ele não hesita em expressar suas preferências, com a mesma intensidade de King Lear. Edward Norton? “Uma dor de cabeça.” Kevin Spacey? “Um homem estúpido.” A atuação de Ian McKellen? “Não do meu agrado.” Ele também é direto sobre escritores e diretores: Tarantino (“meretricious”), Michael Caton-Jones (“um completo idiota”), David Hare (“um babaca”). Cox não se intimida em criticar o que considera comprometer a qualidade do trabalho em prol do apelo popular.
Em 2017, interpretou Churchill em um filme biográfico, enquanto Gary Oldman retratava o mesmo personagem em ‘Darkest Hour’, que lhe rendeu um Oscar de Melhor Ator. Cox chamou o filme de Oldman de “bobagem” e “um espetáculo para agradar a multidão”. Sua sinceridade lhe causou problemas ou o fez perder amigos? “Não sei ainda”, responde com uma risada. “Minha esposa me diz para ter cuidado. Mas eu penso: ‘F***-se, eu não quero ter cuidado! Vou fazer 80 anos este ano. F***-se! Vou dizer o que quero dizer.’”
Polêmicas com Co-estrelas e a Arte da Atuação
Cox também se envolveu em polêmicas ao criticar o método de atuação de seu colega de ‘Succession’, Jeremy Strong (que interpretou Kendall Roy), chamando-o de “irritante” e “uma merda americana”. Strong teria se inspirado em Daniel Day-Lewis, que também se envolveu no debate. Day-Lewis aconselhou Cox a abandonar seu “púlpito” e entrar em contato para discutir o assunto. Cox não seguiu o conselho. “Crianças não perguntam ‘Qual é a minha motivação?’”, argumenta. “Elas simplesmente fazem.”
Ele se irrita com atores que não atuam “de dentro” e com diretores que não respeitam “o texto”, até mesmo diante de plateias desinteressadas. (Uma vez, ele tirou o programa de um espectador em Nova York que estava lendo durante a peça.) Ele não hesita em criticar filmes que nem sequer assistiu. Ele adora a adaptação de 1939 de ‘Wuthering Heights’, com Laurence Olivier e Merle Oberon, e questiona a nova versão com Margot Robbie. “‘Keith Cliff! It’s me, Cathy!’”, exclama em um sotaque australiano exagerado (Robbie participou da novela australiana ‘Neighbours’). “‘How ya doing, Keith? Awright?’ ‘Yeah, I’m awright!’” Ele ri antes de se recompor. “Margot Robbie é bonita demais para o papel. Acho que deveria haver algo mais de cigana nela, mas é errado julgá-la. Pode ser um filme brilhante.”
Direção e Reflexões sobre a Indústria
Sua estreia como diretor é ‘Glenrothan’, que aborda temas semelhantes a ‘Succession’: dois irmãos escoceses, Sandy (Cox) e Donal (Alan Cumming), lidam com as cicatrizes deixadas por um pai autoritário enquanto disputam a família de whisky. Ele se considera mais igualitário do que muitos diretores que se autodenominam visionários, citando Quentin Tarantino como exemplo. “Eu gosto de honrar a performance do ator. Em um filme de Quentin Tarantino, o que você vê é tudo Quentin Tarantino. Não é isso que eu quero.” ‘Glenrothan’ é sua carta de amor à Escócia.
Cox reflete sobre a mobilidade social crescente que testemunhou ao deixar a Escócia aos 17 anos, inspirada por filmes como ‘Saturday Night and Sunday Morning’ e a peça ‘Look Back in Anger’. Ele lamenta a injustiça histórica em relação à Escócia, destacando suas contribuições intelectuais e a falta de reconhecimento. Ele também explora suas raízes irlandesas, revelando que é 80% irlandês, com ancestrais que chegaram a Dundee após a Grande Fome, encontrando trabalho na construção de canais e na indústria têxtil. Ele descreve a fome como um genocídio cujos efeitos nunca foram totalmente reconhecidos, e critica o tratamento histórico dos povos celtas.
Apesar de suas opiniões fortes, ‘Glenrothan’ não é um filme raivoso. Apresenta belas paisagens escocesas e músicos folclóricos em pubs acolhedores. No entanto, sua desconfiança em relação à política do Reino Unido é evidente. Ele apoiou o Partido Nacional Escocês e era próximo do ex-líder Alex Salmond. Ele expressa preocupação com as recentes controvérsias envolvendo o SNP, incluindo acusações de má conduta financeira contra Peter Murrell, ex-diretor executivo do partido.
Cox também compartilha suas reflexões sobre sua vida pessoal, incluindo seus casamentos anteriores e sua relação com sua esposa, Nicole Ansari-Cox. Ele admite que não foi um bom marido ou pai no passado, mas que a terapia o ajudou a se tornar mais presente e aberto. Eles mantêm quartos separados em suas casas na Inglaterra e nos Estados Unidos, valorizando a individualidade e a liberdade. Ele celebra seu próximo casamento de prata e reconhece o sacrifício de sua esposa. Aos 80 anos, Cox continua a desafiar as convenções e a expressar suas opiniões sem medo, com a mesma intensidade que o consagrou como um dos grandes atores de sua geração.
Glenrothan estreia nos cinemas em 17 de abril.




